CAMILA RODRIGUES FERREIRA CABRAL
ELIANA APARECIDA ILEK
JEFFERSON MARTINS CIPRIANO
(coautores)[1]
RESUMO: Este artigo analisa a relevância do pensamento da filósofa política Hannah Arendt para compreender os perigos da obediência cega, tomando como foco a história recente do Brasil. A partir do conceito da “banalidade do mal”, apresentado por Arendt em seu estudo do julgamento de Adolf Eichmann, discute-se como indivíduos comuns podem ser cooptados para práticas autoritárias ao abdicar do pensamento crítico e da responsabilidade ética. O texto estabelece um diálogo entre o pensamento arendtiano e as tradições filosóficas clássicas de Platão, Sócrates e Kant, enfatizando que a democracia verdadeira depende do exercício da reflexão autônoma, da integridade moral e do engajamento consciente dos cidadãos. A metáfora da caverna, de Platão, é usada para ilustrar a dificuldade e a importância de sair da ignorância para alcançar a verdade e a responsabilidade ética. No contexto brasileiro contemporâneo, marcado por polarização política, desinformação e crises institucionais, o artigo demonstra que a banalidade do mal permanece uma ameaça real, manifestando-se na adesão acrítica a discursos autoritários e na erosão das bases democráticas. Para superar esse cenário, reforça-se a necessidade de fortalecer a educação política, o pensamento crítico e a autonomia moral, garantindo que os cidadãos possam resistir à manipulação e contribuir para a construção de uma democracia sólida, plural e justa. Assim, pensar é apresentado não apenas como um ato intelectual, mas como uma ação ética e política fundamental para a vida democrática.
Palavras-chave: Banalidade do mal; obediência cega; pensamento crítico.
ABSTRACT: This article examines the relevance of political philosopher Hannah Arendt’s thought to understand the dangers of blind obedience, focusing on Brazil’s recent history. Drawing on Arendt’s concept of the “banality of evil,” developed during her analysis of Adolf Eichmann’s trial, it discusses how ordinary individuals can be co-opted into authoritarian practices by relinquishing critical thinking and ethical responsibility. The text establishes a dialogue between Arendt’s ideas and the classical philosophical traditions of Plato, Socrates, and Kant, emphasizing that true democracy depends on autonomous reflection, moral integrity, and conscious citizen engagement. Plato’s allegory of the cave is employed to illustrate the difficulty and importance of emerging from ignorance to reach truth and ethical responsibility. In contemporary Brazil, marked by political polarization, misinformation, and institutional crises, the article shows that the banality of evil remains a real threat, manifested through uncritical adherence to authoritarian discourses and erosion of democratic foundations. To overcome this scenario, it stresses the need to strengthen political education, critical thinking, and moral autonomy, ensuring citizens can resist manipulation and contribute to building a solid, plural, and just democracy. Thus, thinking is presented not merely as an intellectual act but as an essential ethical and political action for democratic life.
Keywords: Banality of evil; blind obedience; critical thinking.
1.INTRODUÇÃO
A história do século XX revelou, de uma forma brutal, a capacidade da humanidade em institucionalizar a violência, naturalizar a dominação e transformar a obediência em virtude cívica. Atrocidades presenciadas em regimes totalitários como o nazismo e stalinismo, por exemplo, e a passividade de milhões de pessoas diante do horror cometido por seus líderes, traz à tona um desafio filosófico e ético que atravessa os fundamentos da política moderna: como pessoas comuns, sob o manto da legalidade e da disciplina, tornam-se cúmplices da barbárie?
Essa indagação percorre toda a obra da filósofa política Hannah Arendt (1906–1975), que dedicou boa parte de sua vida a compreender os mecanismos que possibilitam a destruição do espaço público, a corrosão da responsabilidade moral e a banalização do mal.
Arendt, uma pensadora de origem judaica-alemã que se exilou no início do regime nazista e se estabeleceu nos Estados Unidos, elaborou uma das análises mais interessante sobre o comportamento humano em regimes autoritários.
Em seu livro Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal (1963), resultado da cobertura jornalística do julgamento de Adolf Eichmann, ex-oficial da SS responsável pela logística da deportação de judeus aos campos de extermínio, Arendt desmistifica a figura do criminoso ideológico ou monstruoso. Em vez de um fanático ou psicopata, Eichmann aparece como um funcionário zeloso, incapaz de refletir eticamente sobre suas ações, que alegava apenas "cumprir ordens".
A partir dessa constatação, Arendt formula o conceito de banalidade do mal: o mal não como um projeto consciente e demoníaco, mas como consequência da ausência de pensamento crítico, da submissão irrefletida e da abdicação da responsabilidade individual.
Essa reflexão arendtiana, longe de estar distante apenas no passado europeu, possui relevância para a análise de fenômenos políticos contemporâneos. Em especial, o caso brasileiro recente oferece material empírico e simbólico que evidencia a atualidade dos alertas de Arendt.
O ciclo político iniciado nas manifestações de 2013 e intensificado com a polarização das eleições de 2018 e 2022 foi marcado pelo crescimento de discursos autoritários, da intolerância política, da desinformação digital e da recusa da racionalidade democrática.
Nesse contexto, milhões de cidadãos adotaram posturas de adesão incondicional a lideranças populistas, replicaram argumentos negacionistas especialmente durante a pandemia de COVID-19 onde por muitas vezes defenderam medidas que confrontavam abertamente os princípios constitucionais.
O episódio do 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas por manifestantes que não reconheciam o resultado eleitoral, é um símbolo extremo da radicalização antidemocrática no Brasil.
Contudo, mais perturbador do que os líderes ou ideólogos, são os milhares de indivíduos comuns, que em sua maioria são compostos de trabalhadores, religiosos, estudantes que participaram ativamente ou endossaram tais ações, muitas vezes sob a justificativa de obediência a ordens superiores, fidelidade ideológica ou crença na legitimidade de um “bem maior”.
Essa atitude evidencia o que Arendt temia, uma sociedade onde o julgamento moral é substituído por fórmulas prontas, onde pensar se torna uma exceção, e obedecer, uma regra confortável.
Diante desse cenário, este artigo propõe-se a refletir, de forma crítica, sobre os perigos da obediência cega na política contemporânea brasileira, à luz do pensamento de Hannah Arendt.
A pesquisa parte da hipótese de que a banalidade do mal não é um fenômeno restrito a contextos totalitários, mas pode emergir em democracias fragilizadas, quando instituições perdem credibilidade, discursos extremistas ganham legitimidade social e os indivíduos deixam de exercer o pensamento crítico como prática cotidiana.
Busca-se compreender quais são os mecanismos que, no Brasil recente, favoreceram a obediência cega a discursos autoritários? Em que medida a irresponsabilidade individual contribuiu para a degradação do espaço público? Como os ensinamentos de Arendt podem auxiliar na democracia, baseados na reflexão, no juízo moral e na ação consciente?
Para isso, o artigo será dividido em três eixos principais: A exposição dos conceitos fundamentais do pensamento arendtiano — banalidade do mal, julgamento moral, ação política e responsabilidade; A análise crítica de eventos e comportamentos políticos no Brasil entre 2018 e 2023, com foco na obediência ideológica, no populismo e na desinformação; e A discussão sobre o papel do pensamento crítico e da educação democrática como formas de resistência à banalização do mal e à cultura da obediência sem limites.
Ao final, pretende-se não apenas estabelecer um paralelo histórico e filosófico, mas também oferecer ferramentas para repensar o papel do cidadão no século XXI, diante da ameaça constante da passividade moral e da tentação autoritária. Como sugere Arendt, pensar é uma forma de agir e talvez seja hoje uma das formas mais urgentes de resistência.
2.A BANALIDADE DO MAL E A CRISE DO JULGAMENTO MORAL: FUNDAMENTOS DO PENSAMENTO ARENDTIANO
A trajetória filosófica de Hannah Arendt é marcada por um esforço constante de compreender como sociedades modernas, dotadas de instituições racionais e aparato jurídico, foram capazes de legitimar e operacionalizar o mal em larga escala.
Mais do que denunciar os horrores dos regimes totalitários do século XX, Arendt buscou compreender os mecanismos cotidianos e aparentemente banais que sustentaram tais sistemas particularmente a relação entre obediência, ausência de pensamento crítico e responsabilidade moral individual.
A experiência que catalisou sua reflexão mais radical sobre esse tema foi o julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém, em 1961.
Eichmann, figura central na logística da deportação de milhões de judeus aos campos de extermínio, não se apresentou como um fanático ideológico ou um sádico cruel, mas como um funcionário comum, burocrático, que se dizia apenas “cumpridor de ordens”.
Essa constatação levou Arendt a formular o célebre e controverso conceito de “banalidade do mal”, desenvolvido em sua obra Eichmann em Jerusalém (1963).
Há alguns anos, em relato sobre o julgamento de Eichmann em Jerusalém, mencionei a banalidade do mal. Não quis, com a expressão, referir-me a teoria ou doutrina de qualquer espécie, mas antes a algo bastante factual, o fenômeno dos atos maus, cometidos em proporções gigantescas atos cuja raiz não iremos encontrar em uma especial maldade, patologia ou convicção ideológica do agente; sua personalidade destacava-se unicamente por uma extraordinária superficialidade. (ARENDT, 1993, p. 145) (Destaques nosso)
Ao contrário do que muitos imaginaram, o mal não se revelou em Eichmann como um projeto intencionalmente perverso, mas como o resultado da renúncia ao pensamento, da automatização da conduta e da recusa de responsabilidade moral.
Segundo Arendt, o mal pode ser cometido não apenas por indivíduos cruéis, mas por sujeitos comuns que deixam de pensar, julgar e agir de forma autônoma.
O mal, assim, se banaliza quando o juízo moral é substituído por fórmulas administrativas, ideológicas ou legais, e quando os indivíduos se transformam em meros executores do que lhes é ordenado.
Nesse sentido, Arendt enfatiza que regimes totalitários e estruturas autoritárias se sustentam não apenas pela repressão, mas pelo apoio passivo de indivíduos comuns, que aceitam discursos e ordens sem reflexão crítica.
Clichês, frases feitas, adesão a códigos de expressão e conduta convencionais e padronizados têm função socialmente reconhecida de nos proteger da realidade, ou seja, da exigência do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos em virtude de sua mera existência. Se respondêssemos todo tempo a esta exigência, logo estaríamos exaustos; Eichmann se distinguia do comum dos homens unicamente porque ele, como ficava evidente, nunca havia tomado conhecimento de tal exigência. (ARENDT, 1995, p. 6)
Trata-se do fenômeno de indivíduos que, ao não assumirem responsabilidade ética sobre suas escolhas, tornam-se “dentes da engrenagem” que viabilizam sistemas opressivos ainda que não tenham, em si mesmos, intenções maliciosas.
A filósofa alerta que a obediência cega legitima os sistemas de dominação, mesmo quando disfarçados de legalidade ou ordem.
Esse processo de adesão irrefletida é potencializado pela tendência social de evitar o pensamento incômodo, substituindo-o por slogans, doutrinas rígidas ou lealdades incondicionais.
Em seus ensaios reunidos em Responsabilidade e Julgamento (2003), Arendt insiste que a verdadeira responsabilidade começa quando o indivíduo se recusa a aceitar o mundo como ele é e passa a julgá-lo com base em princípios éticos universais.
A dinâmica descrita por Arendt pode ser analogicamente compreendida à luz do mito da caverna de Platão.
No diálogo platônico, os prisioneiros acorrentados olham para sombras projetadas na parede, acreditando que aquilo é a realidade. Libertar-se e sair da caverna exige esforço, desconforto e, sobretudo, disposição para ver a verdade além das aparências.
Arendt nos convida a um movimento semelhante: romper com a passividade, com a zona de conforto da obediência automática e enfrentar a luz incômoda da verdade. Apoiar ideias, governos ou doutrinas sem análise crítica equivale a viver nas sombras, reproduzindo injustiças sem sequer reconhecê-las como tais.
A filósofa rejeita, assim, qualquer desculpa baseada na legalidade ou na função ocupada.
Para ela, o critério ético fundamental reside no pensamento como condição do juízo moral.
Pensar, neste sentido, não é um exercício meramente intelectual, mas um ato profundamente político e moral: é o que permite ao indivíduo interromper a lógica da dominação e perguntar “isso que faço é justo?” Independentemente de ser legal ou ordenado por uma autoridade.
Desse modo, Arendt denuncia uma das maiores fragilidades da modernidade política: a dissociação entre o indivíduo e sua capacidade de julgamento.
Grandes massas de pessoas constantemente se tornam supérfluas se continuamos a pensar em nosso mundo em termos utilitários. [...] Os acontecimentos políticos, sociais e econômicos de toda parte conspiram silenciosamente com os instrumentos totalitários para tornar os homens supérfluos. (ARENDT,1989, p. 510).
O cidadão que age sem pensar, ainda que passivamente, participa ativamente da construção de sistemas opressivos, tornando-se corresponsável pelos danos causados. Como afirma a própria autora:
Em circunstâncias de crimes políticos em larga escala, o problema é que a maioria das pessoas simplesmente não pensa se deve obedecer. Elas obedecem porque a obediência é mais fácil do que resistir.
Por isso, Arendt sustenta que a democracia não pode depender apenas de leis ou instituições formais, mas deve estar enraizada na consciência dos cidadãos, na capacidade de resistir à adesão acrítica e no exercício constante do julgamento ético.
A liberdade política, para ela, não se limita ao voto ou à legalidade processual, mas exige integridade moral, autonomia intelectual e a disposição para pensar “fora da caverna”, mesmo quando isso implica confrontar as sombras do próprio tempo.
3.OBEDIÊNCIA CEGA E AUTORITARISMO NO BRASIL CONTEMPORÂNEO: UM PARALELO COM O PENSAMENTO ARENDTIANO
A banalidade do mal, conforme diagnosticada por Hannah Arendt, revela que o perigo não reside apenas no ódio explícito ou na malícia consciente, mas principalmente na incapacidade de pensar e assumir a responsabilidade por suas próprias ações.
Adolf Eichmann, figura central na execução do Holocausto, não era um cruel por natureza, mas apresentava uma falha ética fundamental: a ausência de reflexão crítica e julgamento moral diante do que fazia.
Sua consciência ficou efetivamente tranquila quanto ele viu o zelo e o empenho com que a boa sociedade de todas as partes reagia ao que ele fazia. Ele não precisava cerrar os ouvidos para a voz da consciência, como diz o preceito, não porque ele não tivesse nenhuma consciência, mas porque sua consciência falava com a voz respeitável, com a voz da sociedade respeitável à sua volta. (Arendt, 1999, p. 143)
Essa constatação traz à tona uma importante lição para sociedades contemporâneas, inclusive democráticas, que enfrentam crises políticas e sociais.
Ainda nesta esteira, se pode enxergar que trazer a lume a questão da consciência, como regra moral, ou então, como norte para o que é correto ou errado, não é de forma alguma minimamente aceitável.
3.1 Resistência Filosófica ao Mal: Sócrates e Kant
Na busca por compreender os fundamentos da responsabilidade ética, o pensamento de Arendt dialoga com tradições filosóficas clássicas que valorizam o exercício da reflexão e do diálogo interno.
Sócrates, em sua prática dialógica, representa um modelo essencial de resistência: por meio do diálogo consigo mesmo, o indivíduo desenvolve consciência, reconhece suas limitações e constrói critérios para julgar suas próprias ações, diferenciando o que é moralmente justo do que é apenas legalmente permitido.
O filósofo grego, traz a seguinte reflexão em Apologia de Sócrates;
E não vos encolerizeis comigo, porque digo a verdade; não há nenhum homem que se salve, se quer opor-se, com franqueza, a vós ou a qualquer outro povo, e impedir que muito ato contrário à justiça e às leis se pratique na cidade. E não há outro caminho: quem combate verdadeiramente pelo que é justo, se quer ser salvo por algum tempo, deve viver a vida privada, nunca meter-se nos negócios públicos. (PLATÃO, 2000, p. 19).
De forma complementar, Immanuel Kant reforça essa ideia ao enfatizar a importância da autonomia moral como condição necessária para agir eticamente, independentemente das pressões sociais ou políticas.
Para Kant, o agir moral exige que o indivíduo siga imperativos categóricos, ou seja, princípios que possam ser universalizados, e não simplesmente ordens ou convenções externas.
Ser caridoso quando possível é um dever e, além disso, também há muitas almas por temperamento tão solidárias que, mesmo sem outro motivo de vaidade ou proveito próprio, encontram um íntimo deleite em espalhar alegria ao seu redor e que podem regozijar-se com o contentamento dos outros na medida em que este é obra sua. Mas eu afirmo que, em tal caso, semelhante ação, por mais conforme o dever, por mais amável que seja, não tem, contudo, qualquer verdadeiro valor moral, mas vai de par com outras inclinações, por exemplo, a inclinação à honra que, quando por sorte acerca com aquilo que de fato é de proveito geral e conforme o dever, por conseguinte digno de honra, merece louvor e incentivo, mas não alta estima; pois à máxima falta o teor moral, a saber, fazer semelhantes ações não por inclinações, mas, sim, por dever. [...] É aí mesmo que começa o valor do caráter, que é um valor moral e sem qualquer comparação o mais alto, a saber, que ele faça o bem, não por inclinação, mas por dever” (KANT, 2009, p. 119 a 121).
Ambos os filósofos apontam para a necessidade fundamental do pensamento crítico e da autonomia como ferramentas essenciais para resistir à obediência cega e evitar a cumplicidade com o mal.
3.2 A Banalidade do Mal e a Realidade Brasileira
No Brasil recente, a banalidade do mal manifesta-se de maneira preocupante em meio à disseminação de desinformação, polarização política acentuada e ataques recorrentes às instituições democráticas.
As coisas se tornam transparentes quando eliminam de si toda e qualquer negatividade, quando se tornam rasas e planas, quando se encaixam sem qualquer resistência ao curso raso do capital, da comunicação e da informação... As coisas tornam-se transparentes quando depõem sua singularidade e se expressam unicamente no preço. O dinheiro, que iguala tudo com tudo, desfaz qualquer incomensurabilidade, qualquer singularidade das coisas. Portanto, a sociedade da transparência é um abismo infernal do igual. (Byung-Chul Han, 2019, p. 10)
A adesão acrítica a discursos autoritários, muitas vezes alimentada por mecanismos de manipulação digital, reflete a ausência desse exercício constante da reflexão ética individual que Arendt e os filósofos clássicos defendem.
Nosso presente anda, mesmo, cheio de passado, e a história não serve como prêmio de consolação... História não é bula de remédio nem produz efeitos rápidos de curta ou longa duração. Ajuda, porém, a tirar o véu do espanto e a produzir uma discussão mais crítica sobre nosso passado, nosso presente e sonho de futuro. (SCHWARCZ, 2019, p.25 a 26)
Indivíduos que se colocam na posição de mero repetidor ou executor de ideias sem questionamento tornam-se cúmplices, ainda que involuntários, de práticas que enfraquecem a democracia e promovem injustiças sociais.
Essa cumplicidade se torna um problema estrutural, pois compromete o espaço público e inviabiliza o diálogo necessário para a convivência pluralista.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Para Platão, sair da caverna representa a difícil, mas necessária, jornada rumo ao conhecimento da verdade um processo que exige coragem para abandonar a zona de conforto das aparências e enfrentar a luz da realidade.
Hannah Arendt incorpora essa metáfora em sua análise política e ética, destacando que pensar é um ato de liberdade essencial, uma capacidade humana que permite ao indivíduo resistir à manipulação, à desinformação e à adesão sem critérios a sistemas injustos e opressivos.
O exercício socrático do diálogo interno e da reflexão contínua demonstra que a assunção da responsabilidade pessoal pelos próprios atos e escolhas é condição indispensável para uma vida ética e autêntica.
A reflexão crítica, ao permitir que o indivíduo questione crenças, valores e consequências de suas ações, torna possível agir com integridade e criatividade, contribuindo para a construção de uma coletividade mais humana e solidária.
No Brasil contemporâneo, esse compromisso ético se torna ainda mais urgente diante do agravamento da polarização política, da disseminação massiva de desinformação, do enfraquecimento das instituições democráticas e da normalização de discursos autoritários.
A adesão irracional a narrativas que deslegitimam fatos e a negação de princípios democráticos revela como a banalidade do mal, descrita por Arendt, não é um fenômeno restrito a regimes totalitários do passado, mas uma ameaça persistente que pode se manifestar mesmo em sociedades formalmente democráticas.
Assim, o pensamento crítico emerge como a primeira e fundamental linha de defesa para a preservação da democracia.
É necessário que os cidadãos desenvolvam a capacidade de avaliar criticamente discursos, questionar autoridades e refletir sobre as implicações morais de suas escolhas políticas e sociais.
Essa prática fortalece a autonomia moral, evitando que o simples cumprimento de ordens se convertam em formas de cumplicidade com injustiças e violações.
A integração da análise de Arendt com as tradições filosóficas de Platão, Sócrates e Kant enfatiza que a democracia verdadeira é uma construção contínua, que depende não apenas da existência de leis e instituições, mas da consciência ética e do engajamento responsável dos cidadãos.
Nesse sentido, a democracia exige mais do que formalismos; requer uma cultura política que valorize o diálogo, a pluralidade, o respeito à diferença e o compromisso com a verdade.
Portanto, assumir a própria consciência, diferenciar o que é moralmente correto do que é apenas legalmente permitido, e agir com responsabilidade ética e política são passos imprescindíveis para evitar que o mal se banalize e para garantir uma democracia viva, resiliente e justa.
Pensar não é somente um ato intelectual ou individual, mas um exercício ético, político e profundamente humano, capaz de fortalecer tanto o indivíduo quanto a coletividade, abrindo caminhos para uma sociedade mais plural, inclusiva e livre.
Nesse sentido, o desafio contemporâneo brasileiro, e global, é promover a educação política, o acesso à informação confiável, o incentivo ao debate público construtivo e o fortalecimento das instituições democráticas, garantindo que o legado de Arendt e dos grandes pensadores clássicos inspire a construção de um futuro em que o pensamento crítico e a responsabilidade moral sejam os pilares centrais da vida pública.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.
ARENDT, Hannah. A dignidade da política: ensaios e conferências. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1993.
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Cia das Letras, 1999.
ARENDT, Hannah. Sobre a Violência. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
ARENDT, Hannah. A vida do espírito: o pensar, o querer, o julgar. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995.
HAN, B. C. (2019). Sociedade da Transparência. Petrópolis: Vozes.
KANT. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. São Paulo: Barcarolla/Discurso Editorial, 2009.
PLATÃO. Apologia a Sócrates. São Paulo: Nova Cultural, 1987.
PLATÃO. A República. Tradução de André Studart. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
SCHWARCZ, L. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
NOTA:
[1] Alunos do 3º Semestre de Direito da Faculdade de Direito de Santo André – FADISA. E-mails: camilarfcabral@gmail.com , elianailek@hotmail.com , jefferson@vicentinichavis.com.br e filomarcosaduarte@gmail.com
Doutorando em Ciência Criminal, Mestre em Filosofia do Direito e do Estado (PUC/SP), Especialista em Direito Penal e Processo Penal (Mackenzie/SP), Bacharel em teologia e direito, professor de Direito e pesquisador da CNPq .
Conforme a NBR 6023:2000 da Associacao Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), este texto cientifico publicado em periódico eletrônico deve ser citado da seguinte forma: SILVA, Marcos Antonio Duarte. Hannah Arendt e os Perigos da Obediência Cega: Um Paralelo com a História Recente do Brasil Conteudo Juridico, Brasilia-DF: 26 dez 2025, 04:30. Disponivel em: https://conteudojuridico.com.br/consulta/artigos/69933/hannah-arendt-e-os-perigos-da-obedincia-cega-um-paralelo-com-a-histria-recente-do-brasil. Acesso em: 02 jan 2026.
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