RESUMO: Há muito tempo observa-se, por meio de discursos bem ensaiados, a ascensão da política de forma peculiar. Uma grande virada ocorreu através de discursos proferidos por um cidadão aparentemente comum que, em sua oratória, apresentava ideias revestidas de soluções. No entanto, em sua essência, tais propostas traziam uma ruptura com a cultura existente e com a aceitação da diversidade. Sob sua ótica, toda a situação negativa de seu povo era atribuída a uma casta específica, à qual ele imputava todas as vicissitudes do passado e do presente. Sua mensagem pregava a necessidade de encerrar as aspirações desse grupo de forma definitiva. Frente a essa realidade, o que se viu em seguida foram mortes em massa, consolidando a ideia de extermínio que a história, mais tarde, denominaria como Holocausto. A análise desses discursos, de suas ideias e das práticas executadas após a ascensão ao poder, serve hoje como um grande alerta sobre o que figuras aparentemente inofensivas podem realizar. Diante disso, cabe a reflexão: será que no Brasil corremos esse perigo?
Palavras Chaves: Discurso. Ideológicos. Política. Estrutura. Perigo.
1.INTRODUÇÃO
Foucault e Bakhtin, em suas obras, fundamentam-se nos píncaros de uma enorme montanha ao divisar a ideia da estrutura, condição, construção e objetivos que um discurso pode atingir.
Faz-se necessário, nos dias atuais, revisitar esses dois pensadores e extrair de seus escritos as ideias primordiais que podem nos auxiliar na compreensão do mundo contemporâneo.
No campo da política nacional e internacional, há um cenário riquíssimo nessa área, uma vez que se pode antever, através dos discursos dos detentores do poder, como pretendem conduzir suas ideias mais comezinhas.
Destarte, diante da problemática e da situação que tais discursos inflamados e acusatórios podem causar, percebe-se, em sua esteira, a ausência de inocência ou mesmo de clareza.
Absolutamente tudo nesses discursos é calculado para causar impacto, gerar reações e trazer retorno a certas ideias.
Outrossim, pode-se afirmar peremptoriamente que há objetivos a serem alcançados, e estes deveriam ser objeto de estudo.
Na proposta lançada, a ideia é trazer uma análise despojada de ideologia, contudo contemporânea, sobre o que o cenário político apresenta em discursos eivados de populismo, com a clara pretensão de agradar aos chamados “descontentes”.
Para tanto, cumpre notar: os discursos são construídos frente à realidade atual ou constroem uma realidade alternativa?
Qual o propósito dos discursos políticos no cenário arquitetado pelos líderes atuais, que anunciam uma verdadeira hecatombe caso suas ideias não sejam implementadas e não medem esforços para criar um clima de medo?
E, ainda, qual o alcance que um discurso pode ter em uma população inteira que acredita em suas premissas?
2.OS DISCURSOS E A CONSTRUÇÃO DA IDEOLOGIA
O ano era 1920. Logo após assumir a liderança do Partido dos Trabalhadores Alemães, Adolf Hitler começou, em 1921, a ganhar notoriedade com sua oratória agressiva em cervejarias de Munique.
Porém, foi a partir de 1923 que sua presença como orador de impacto nacional consolidou-se.
Após o fracasso do “Putsch da Cervejaria”, ele utilizou seu julgamento para propagar suas teses.
As principais ideias de Hitler naquele momento, que moldaram o Nazismo, eram:
Antissemitismo Radical e Racialismo: Hitler definia a história humana como uma luta darwinista social entre raças. Ele promovia a visão da "raça ariana" como superior e tratava os judeus não como um grupo religioso, mas como um "inimigo biológico" e uma raça inferior que ameaçava a pureza e a existência alemã.
Ultranacionalismo e o Volk (Povo): Defendia a criação de uma Volksgemeinschaft (comunidade popular/racial) unida, baseada na devoção absoluta ao bem do Volk alemão, rejeitando divisões de classe.
Rejeição à Democracia e Parlamentarismo: Hitler atacava abertamente a República de Weimar, o sistema democrático parlamentar e o "marxismo", defendendo a necessidade de um líder ditatorial forte e de uma ação ousada e violenta para salvar a nação.
Revanchismo e o Tratado de Versalhes: Hitler culpava os políticos democráticos ("criminosos de novembro") pela derrota na Primeira Guerra Mundial e pela "traição" da Alemanha, exigindo a revogação do Tratado de Versalhes e a recuperação do orgulho nacional.
Expansionismo e Lebensraum (Espaço Vital): Acreditava que a Alemanha precisava se expandir territorialmente, especialmente em direção ao Leste (Rússia e países vizinhos), para garantir recursos e espaço para a "raça superior" ariana.
Mudança de Tática (Legalidade): Após o fracasso do golpe armado, Hitler reformulou sua estratégia durante o julgamento: decidiu que o Partido Nazista deveria buscar o poder por meios legais (eleições e propaganda) para destruir a democracia por dentro, em vez de um golpe violento direto. (https://encyclopedia.ushmm.org/content/en/article/adolf-hitler).
Essas ideias, por incrível que pareça, não chocaram o público; pelo contrário, atraíam semanalmente mais pessoas aos locais de seus discursos para ouvi-lo, sendo ele frequentemente aplaudido.
Evidentemente, indivíduos que nutriam pensamentos semelhantes, ou até mais nocivos, começaram a se reunir para escutá-lo.
Ao perceberem sua capacidade de inflamar as massas, passaram a planejar sua ascensão ao poder.
Nesse contexto, os discursos de Hitler permitiram que ele exercesse grande influência e reunisse aliados que pensavam de forma similar (alguns sendo ainda mais sádicos na aplicação das ideias do que o próprio orador).
É de suma importância perceber que um discurso possui um poder arrebatador, sendo capaz de construir a imagem de uma pessoa e atrair prestígio por meio dessa habilidade.
E a razão disso é, talvez, esta: é que se o discurso verdadeiro não é mais, com efeito, desde os gregos, aquele que responde ao desejo ou aquele que exerce o poder, na vontade de verdade, na vontade de dizer esse discurso verdadeiro, o que está em jogo, senão o desejo e o poder? O discurso verdadeiro, que a necessidade de sua forma liberta do desejo e libera do poder, não pode reconhecer a vontade de verdade que o atravessa; e a vontade de verdade, essa que se impõe a nós há bastante tempo, é tal que a verdade que ela quer não pode deixar de mascará-Ia. (Sic) (FOUCAULT, 1996, p.20).
Foucault, em sua obra “A Ordem do Discurso”, traz a essência do que constitui um discurso. Ele não despreza a forma como esse elemento linguístico é construído e como afeta a sociedade em sua inteireza.
Ainda nessa esteira, percebe-se o papel crucial que o discurso assume em uma sociedade politizada e, nos dias atuais, interligada pela internet.
Nesse cenário, o discurso polariza as opiniões a ponto de suscitar de qual lado cada indivíduo deve estar.
Ao considerar essa condição, fica evidente a importância de buscar, no discurso, a compreensão de como ele afetará a coletividade.
Existem, evidentemente, muitos outros procedimentos de controle e de delimitação do discurso. Aqueles de que falei até agora se exercem de certo modo do exterior; funcionam como sistemas de exclusão; concernem, sem dúvida, à parte do discurso que põe em jogo o poder e o desejo. Pode-se, creio eu, isolar outro grupo de procedimentos. Procedimentos internos, visto que são os discursos eles mesmos que exercem seu próprio controle; procedimentos que funcionam, sobretudo, a título de princípios de classificação, de ordenação, de distribuição, como se se tratasse, desta vez, de submeter outra dimensão do discurso: a do acontecimento e do acaso. (Ibidem, p.21).
Cumpre lembrar que discursos não apenas descrevem o mundo; eles induzem a uma face da verdade.
Assim, entende-se a pretensão dos discursos de tom ideológico em servir como ponte de um estado de coisas para um novo patamar, o que é plenamente perceptível na retórica do ex-líder alemão.
Na atual conjuntura, divisamos discursos próximos e com alcance ampliado pela internet, que tem dado voz a qualquer um, independentemente da reflexão sobre o efeito de suas ideias.
[...] a palavra penetra literalmente em todas relações entre indivíduos, nas relações de colaboração, nas de base ideológica, nos encontros fortuitos da vida cotidiana, nas relações de caráter político, etc. As palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios (BAKHTIN, 1982, p. 41).
Há algo importante a ser dito sobre o discurso e seu poder para mudar mentalidade, cultura, épocas como se pode verificar ao longo da história.
No texto em comento de Bakhtin se vislumbra essa condição importante, uma vez que “penetra literalmente em todas as relações entre indivíduos [...] na base ideológica [...]”.
Assim é crucial observar, estudar, analisar e se aprofundar na questão de discursos, uma vez se tratar de algo fundamental nas relações humanas em suas mais diversas esferas.
E nessa linha, é importante destacar a questão da ideologia que se assevera desta forma;
[...] ideologia’ é um conceito inerentemente negativo. É um instrumento semiótico de lutas de poder, ou seja, uma das formas de se assegurar temporariamente a hegemonia pela disseminação de uma representação particular de mundo como se fosse a única possível e legítima. Sentidos ideológicos são aqueles que servem necessariamente, em circunstâncias particulares, “para estabelecer e sustentar relações de dominação” (Thompson, 2002a, p. 77). Assim, o primeiro passo para a superação de relações assimétricas de poder, e para a (auto) emancipação daqueles que se encontram em desvantagem, pode estar no desvelamento de ideologias. (RAMALHO, 2011, p.25). (Destaques nosso).
O texto vertido traz a premissa importante e que merece destaque, afinal, conceitua a ideologia de forma a demonstrar como ela atua no exercício do poder.
Assim, é crucial analisar a questão dos discursos, por serem fundamentais nas relações humanas.
Nessa linha, destaca-se a ideologia: o texto citado traz uma premissa importante ao conceituar a ideologia como ferramenta no exercício do poder.
Entende-se que a “ideologia é um conceito inerentemente negativo” (Ibidem). Compreender essa nuance é vital, pois seu propósito é “assegurar temporariamente a hegemonia pela disseminação de uma representação particular de mundo como se fosse a única possível e legítima” (Ibidem).
Por fim, observa-se a importância de analisar o impacto da ideologia e sua pretensão absoluta: disseminar ideias como se fossem as únicas aceitáveis, gerando confusão e distonia.
3.O DISCURSO E SUA PRETENSÃO À HEGEMONIA NO PODER
O assunto trazido nessa vereda ideológica é relacionado a hegemonia do poder e transfere guarida a ideia de o discurso não ser construído de forma aleatória, muito pelo contrário, sua pretensão é alcançar o poder, estendê-lo e, acima de tudo, mantê-lo.
Desta forma, é viável observar os tentáculos que são trazidos através do discurso político.
Em consonância com a ideia posta, lê-se;
Ao contrário de outras teorias que veem o poder como uma força de coação unilateral da estrutura sobre o indivíduo, que dela não consegue se libertar, para a ADC o poder é temporário, com equilíbrio apenas instável. Por isso, relações assimétricas de poder são passíveis de mudança e superação. No cerne de tal entendimento, está o conceito de poder como hegemonia, de Gramsci (1988; 1995). Essa concepção de poder em termos de hegemonia implica uma inerente ‘instabilidade’, um ‘equilíbrio instável’. (Op. Cit. p. 24). (Grifos nossos).
Da dicção da citação em comento se pode extrair a concepção lúdica do poder “como hegemonia”, uma vez que não há como gerar uma estabilidade em sua concepção, pois é “inerente ‘instabilidade’, um ‘equilíbrio instável”, o que por si só demonstra a peculiaridade de sua pretensão temporária, opondo-se à ideia de que se pode manter por muito tempo o discurso sem corroê-lo em essência.
Outrossim é mister se considerar a ideia de que há toda uma ilusão criada dentro do discurso, uma vez sua temporalidade ser frágil, não carregando robustez em sua consolidação e sim, arrastando em seu bojo a condicionante de uma passagem intermitente.
A respeito do tema leciona Foucault de forma translúcida;
Seria talvez preciso também renunciar a toda uma tradição que deixa imaginar que só pode haver saber onde as relações de poder estão suspensas e que o saber só pode desenvolver-se fora de suas injunções, suas exigências e seus interesses. [...] Temos antes que admitir que o poder produz saber (e não simplesmente favorecendo-o porque o serve ou aplicando-o porque é útil); que poder e saber estão diretamente implicados; que não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder. Essas relações de “poder-saber” não devem então ser analisadas a partir de um sujeito do conhecimento que seria ou não livre em relação ao sistema do poder; mas é preciso considerar ao contrário que o sujeito que conhece, os objetos a conhecer e as modalidades de conhecimentos são outros tantos efeitos dessas implicações fundamentais do poder-saber e de suas transformações históricas. (FOUCAULT, 2005, p.27). (Grifos nossos).
O poder tem uma forma de manifestação que pode e muitas vezes é posta pelo discurso como a própria história tem trazido à baila ao longo dos séculos, contudo, essa é só uma pequena amostra do que se pode dizer sobre discurso envolvendo o poder.
Assevera ainda a importância de se estabelecer contato com essa realidade do discurso e poder, sendo que um desagua no outro com propósitos bem definidos e simbioticamente faz mister não ser opaco nessa questão.
Vale destacar o que o mesmo pensador traz a lume;
[...] o discurso verdadeiro pelo qual se tinha respeito e terror, aquele ao qual era preciso submeter-se, porque ele reinava, era o discurso pronunciado por quem de direito e conforme ritual requerido; era o discurso que pronunciava a justiça e atribuía a cada qual sua parte; [...] Ora, eis que um século mais tarde, a verdade já não residia mais no que era o discurso, ou no que ele fazia, mas residia no que ele dizia: chegou um dia em que a verdade se deslocou do ato ritualizado, eficaz e justo, de enunciação, para o próprio enunciado: para seu sentido, sua forma, seu objeto, sua relação a sua referência. (Op. Cit., 2006, p.14). (Destaques nossos).
Em consonância com o pensamento foucaultiano, pode-se perceber que a construção do discurso erigido traz uma veracidade que soa forte e necessária: “chegou um dia em que a verdade se deslocou do ato ritualizado, eficaz e justo, de enunciação, para o próprio enunciado” (Ibidem).
Assim, torna-se mais importante do que descortinar se o que está sendo dito é veraz ou não, a preocupação com o “enunciado”; ou seja, se houver uma mera aparência de verdade, esta capitula-se como se tal fosse.
Mediante o exposto vale se valer do texto de Descartes que preleciona sobre o tema desta forma;
[...] há algum tempo eu me apercebi de que, desde os meus primeiros anos, recebera muitas falsas opiniões como verdadeiras, e de que aquilo que depois eu fundei em princípios tão mal assegurados não pode ser senão mui duvidoso e incerto; de modo que me era necessário tentar seriamente, uma vez em minha vida, desfazer-me de todas as opiniões a que até então dera crédito, e começar tudo novamente desde os fundamentos, se quisesse estabelecer algo de firme e de constante nas ciências (DESCARTES, 1986, p. 17). (Destaques nossos).
Infere-se que há real possibilidade do discurso como Descartes assevera trazer “falsas opiniões como verdadeiras”, o que por si só é preocupante, uma vez que há a clara desconstrução na marcha da sociedade ouvinte, e na concepção cartesiana se faz mister “desfazer-me de todas as opiniões a que até então dera crédito”, desta feita há claro sinal de alerta neste sentido.
Por conseguinte, toda a atenção se faz necessária quando se trata de discursos de poder, uma vez que sua pretensão é clara e evidente, e não é em absoluto trazer as verdades dos fatos ou de fato, mas sim convencer e a qualquer custo.
Consoante com a ideia central do discurso de apenas transmitir, sem filtro, sem vênia e, principalmente, sem a necessária ética, dar eco ao que se ouve é temerário, além de perigoso por conta da comprovada distorção da verdade que se observa.
Há uma tendência em acreditar que o conteúdo social [...] pode ser lido sem atenção à própria linguagem. Tais posições e atitudes estão mudando agora. Os limites entre as ciências sociais estão enfraquecendo, e uma maior diversidade de teoria e prática vem se desenvolvendo nas disciplinas. Tais mudanças têm-se feito acompanhar por uma 'virada linguística' na teoria social, cujo resultado é um papel mais central conferido à linguagem nos fenômenos sociais. (FAIRCLOUGH, 2001, p.20).
É imperioso salientar que o discurso nos dias atuais tem ocupado um papel central, principalmente com o uso da internet que tem dado coro e voz a pessoas com toda sorte de pensamento, inclusive, aqueles que podem ser considerados rasos, mas, que encontram ouvidos solícitos para ouvir e até aceitar.
Como se nota é imperioso compreender que o discurso não pode ser tratado como meras ideias jogadas ao ar, muito pelo contrário, tem que ser analisado em sua natureza mormente política e criadora de discipulado, o que por si só é muito temerário.
Nesta linha é possível observar como tem sido usado como instrumento de manipulação;
As condições sociais para o controle manipulativo, portanto, devem ser formuladas em termos de pertencimento a um grupo, posição institucional, profissão, recursos materiais ou simbólicos e outros fatores que definem o poder dos grupos ou de seus membros [...], portanto, o tipo de manipulação social que estudamos aqui é definido em termos de dominação social e sua reprodução nas práticas cotidianas, incluindo o discurso. Nesse sentido, somos mais interessados em manipulação entre grupos e seus membros, que na manipulação pessoal de atores sociais individuais. (VAN DIJK, 2009, p. 354, tradução livre).
Por esta forma, é viável observar a peculiaridade do discurso e sua função que está muito além de transmitir ideias pueris, está sim numa forma de embate caracterizado por uma disputa do poder, sem nenhuma fronteira a limitar, muito pelo contrário, está no limiar de impor ideias as mais diversas e, preferencialmente sem filtro.
4.O DISCURSO DA DESINFORMAÇÃO
A sociedade atual é a chamada da sociedade da informação, então qual seria o propósito de gerar desinformação?
Para entender esta égide nebulosa de desvirtuar a informação trazendo desinformação tem que se usar como pano de fundo Foucault e sua ideia de poder.
Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua “política geral” de verdade, isto é, os tipos de discurso que aceita e faz funcionar como verdadeiros..., os meios pelo qual cada um deles é sancionado, as técnicas e procedimentos valorizados na aquisição da verdade; o status daqueles que estão encarregados de dizer o que conta como verdadeiro. (FOUCAULT, 1979, p.12).
O pensador traz em seu texto a insígnia de como se tratava e se trata até os dias atuais o que se poderia chamar de “verdade”, por extensão compreendido como “política geral”, como se o cenário político fosse responsável em reproduzir verdades sobre aspectos sociais relevantes, e não seria?
Antes de mais nada, cumpre observar que estamos diante de um tema relevante sobre aspectos morais e éticos.
No entanto, cabe atentar novamente para um ponto sumamente importante: essas características são essenciais para o mundo político?
Para esculpir tal magnitude, o filósofo novamente traz uma contribuição que não pode ser desprezada;
[...] para assinalar simplesmente, não o próprio mecanismo da relação entre poder, direito e verdade, mas a intensidade da relação e sua constância, digamos isto: somos forçados a produzir a verdade pelo poder que exige essa verdade e que necessita dela para funcionar, temos de dizer a verdade, somos coagidos, somos condenados a confessar a verdade ou encontrá-la. (Foucault, 1999, p. 29)
No tempo atual a verdade, predita por Foucault tem assumido múltiplas conceituações, como fake, ato falho, ou simplesmente um engano, que pode ser desculpado, mesmo, diante de exposição gigante que se encontra na internet que tem alcance massivo.
Daí não é difícil entender que esses sinônimos encontrados para essas inverdades disparadas, tem um propósito e que não se trata de um erro inocente, como se pode verificar.
Há intuito e propósito direcionado sem nenhum pudor, sem nenhum respeito ao mínimo necessário envolvendo o que se poderia entender como verdade.
E para acentuar este propósito se faz mister adentrar no pensamento de Bourdieu.
Disso resulta que a ciência social deve atentar para a autonomia da língua, sua lógica específica, suas regras próprias de funcionamento. Não se pode especialmente compreender os efeitos simbólicos da linguagem sem levar em conta o fato, mil vezes atestado, de que a linguagem é o primeiro mecanismo formal cujas capacidades geradoras são ilimitadas. Não há nada que não se possa dizer, e pode-se dizer o nada. Pode-se enunciar tudo na língua, isto é, nos limites da gramaticalidade. (BOURDIEU, 2008, p. 28).
Sim a língua tem autonomia e há uma “lógica específica, suas regras próprias de funcionamento”, e uma das mais importantes é gerar resultado uma vez reproduzida na forma de discurso, e imaginando o quanto ela pode influenciar, principalmente uma sociedade incauta.
Bourdieu traz, no bojo de sua teoria, um complemento à ideia de Foucault de que a língua (o discurso) possui o poder de penetrar as entranhas de uma sociedade e de grupos, transformando quimeras em monstros a serem destruídos.
E fatalmente é possível imaginar Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, que em sua obra poderia muito bem retratar o que se vê nos dias modernos;
Dom Quixote é um homem teimoso, de opinião e valente. Sua enorme imaginação lhe permite ver o mundo real como se fosse o dos livros de cavalaria. Nesse sentido, Dom Quixote não age como um louco, mas como uma criança que acredita em seu próprio jogo. Dom Quixote vê gigantes onde há moinhos de vento e exércitos inimigos onde se cruzam rebanhos de ovelhas. (https://humanidades.com/br/dom-quixote/)
A guisa de exemplo se pode perceber como os discursos se facetam tratando de temas que mereceriam um debate relevante, contudo, tomado do calor da ideologia pura (tratando aqui, de Direita e ou a Esquerda), se perdem os freios e contra freios.
Tratando do tema Misoginia: A Direita - A aprovação do chamado PL da Misoginia no Senado Federal desencadeou uma ofensiva de desinformação nas redes sociais. Lideranças e páginas da extrema direita passaram a distorcer o conteúdo do projeto para gerar pânico e deslegitimar a proposta, aprovada por unanimidade. Uma das principais fake news viralizadas logo após a aprovação do PL tenta convencer a população de que, a partir da lei, os homens “não poderão nem dar bom dia para as mulheres sob o risco de serem presos”. (https://fpabramo.org.br/extrema-direita-fake-news-pl-da-misoginia/)
A esquerda - A proposta define misoginia como condutas que manifestam ódio ou aversão a mulheres, baseadas na crença da supremacia do gênero masculino. Cumprimentos, opiniões, discordâncias educadas ou perguntas sobre TPM não configuram crime de misoginia, segundo a relatora da proposta, Soraya Thronicke (Podemos-MS). A informação, no entanto, não é verdadeira. A proposta define misoginia como condutas que manifestam ódio ou aversão a mulheres, baseadas na crença da supremacia do gênero masculino. (https://fpabramo.org.br/extrema-direita-fake-news-pl-da-misoginia/)
O assunto trazido nessa vereda demonstra como se tem utilizado essa técnica de confundir através de temas lançados nas redes sociais, ainda nesta esteira cumpre notar ser normalmente conduzido pela ala conhecida como direita, afirmando ser isso, uma forma de fazer oposição, será? Vejamos;
Ataques ao Sistema Financeiro e Pix: Fake news alegando que o governo federal monitora transações Pix para "controlar a vida" dos cidadãos, o que foi desmentido pelo Banco Central.
Desinformação sobre o Bolsa Família: Narrativas preconceituosas que afirmam que o programa de transferência de renda incentiva mulheres a procriar em vez de estudar, ignorando as condicionalidades de educação e vacinação.
Ataques ao STF e TSE: Disseminação de vídeos antigos fora de contexto para criar falsas narrativas de hipocrisia, além de ataques diretos a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) com o intuito de questionar a integridade das eleições.
Lei Rouanet e Cultura: Distorção sobre o fomento à cultura, alegando falsamente que filmes brasileiros são totalmente financiados por dinheiro público sem retorno, visando atacar artistas.
Golpe de Estado e Instituições: Ameaças e teorias conspiratórias contra a segurança do STF, que levaram à abertura de inquéritos sobre fake news e planejamento de atos antidemocráticos. (https://www.google.com/search?q=quais+as+fakes+news+que+a+direita+tem+soltado).
Como se nota todas essas vertentes não se sustentam numa pesquisa mínima de veracidade, muito pelo contrário, são dissipadas como se fossem bolhas de sabão lançadas ao ar, desaparecem frente ao menor teste.
E claramente como se pode perceber não é oposição.
Vale ressaltar a vileza trazida através dessas ideias comezinhas, sem nenhuma estrutura sequer para possibilitar uma argumentação mínima, ao invés disso, percebe-se a fragilidade, necessária para convencimento da massa a única coisa que importa.
Além desses fatores destacados cumpre salientar a notória importância de se perceber que não há nenhum interesse em desnudar os fatos verídicos, destacando-se tão somente a propositura de gerar dúvida, confusão e ausência de comprometimento.
Resta induvidoso o que Bourdieu declara, referendando a questão desta forma de maquiar a pseudo verdade, que na verdade é absoluta mentira, desnudando a arquitetura de um discurso;
As evidências utilizadas se referem tanto a situações rotineiras de interação nas diferentes esferas da atividade social como às trocas mais propriamente lingüísticas (Sic) no interior de campos especializados de produção simbólica, em especial religião, política e cultura. As trocas linguísticas são também relações de poder simbólico onde se atualizam as relações de força entre os locutores ou os grupos a que eles pertencem. (BOURDIEU, 1998, p.15). (Grifos nossos).
A política como uma das polaridades que faz com que as trocas mencionadas por Bourdieu tem aprisionado multidões que se caem desfalecidas frente a decadência da afronta semiótica.
Resta incontroverso entender que ao se tratar de discurso e, principalmente político, é no mínimo temerário confiar no que se pode ser transmitido, uma vez que o propósito se molda de objetivos, normalmente escusos.
Mormente, cumpre estar atento a verdade dos fatos e deixar de acreditar em tudo que se publica, principalmente nas redes sociais ou aplicativos que tem se mostrado ser um instrumento de manipulação social, usando não raras vezes, apenas quimeras.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
No caso em apreço se faz mister observar que o discurso político tem mais a desconsiderar do que considerar como forma de aprendizado.
Com efeito é sumamente necessário priorizar fatos a falas, destacar o que se é possível provar ao que se é dito, rivalizar o que for possível ao abstrato proposto, e acima de tudo ter como regra duvidar da fonte que jamais se compromete em provar o que se está afirmando.
Infelizmente a política tem trazido uma desinformação quase que generalizada quando se refere, por exemplo a dados, estatísticas ou mesmo a possível informação que poderia ser referendada.
Salientar-se-á que não é mais possível aceitar apenas a palavra daqueles que por ventura se admire, tem que haver um contraste de tudo dando a devida importância de trazer fatos que são incontestes, situações que podem ser empiricamente testadas e comprovadas.
Nada menos do que isso se exige para se poder aceitar o que é afirmado.
Nesta linha é imperioso salientar que urge haver veracidade para poder comprovar e contrapor oposição, muitas vezes ao obvio, não é mais possível dar crédito aqueles que abusaram da confiança da população.
Destarte é fato se perceber o quanto a sociedade tem perdido oportunidades de se elevar e se enlevar à custa da ambição política de algumas pessoas comezinhas, sem projeto a não ser, ter o poder para fazer não o que a população necessita, mas única e exclusivamente aqueles que os seguem desejam.
Passou muito da hora de poder crescer como sociedade pensante e ter massa crítica para não ser levado a aceitar qualquer coisa posta a não ser a verdade cristalina, plausível, possível e transparente.
Inexiste, portanto, suporte factível para se manter discursos que não sejam voltados a princípios que se possam promover o bem maior, a construção de uma sociedade mais livre e pensante, sem ardis e armadilhas postas.
De maneira geral é válido se descobrir os mecanismos ativos que violam as condições mínimas que se pode aceitar quando se trata de candidatos que desejam serem postos em posição de poder, verificando sua ética, sua honestidade ao se referirem as propostas que afetaram diretamente a todos, e nada deve ser negociado nessa esfera, que não exista para melhorar e muito a condição social.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAKHTIN, Mikhail (VOLOCHÍNOV, Valentin N.). Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. 2ª edição - São Paulo: Hucitec, 1982.
BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Linguísticas: O que Falar Quer Dizer - 2. ed., 1ª reimpr. -São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.
BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas linguísticas: o que falar quer dizer. 2. ed. São Paulo: Edusp, 1998.
DESCARTES, René. Discurso do Método. Lisboa: Edições 70, 1986.
FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.
FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. Ed. Loyola: São Paulo, 1996.
________________. A Ordem do Discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 13 ed. Tradução Laura F. A. Sampaio. São Paulo: Loyola, 2006.
________________. Em defesa da sociedade: curso no College de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999.
________________. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
________________. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. 30 ed. Tradução Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 2005.
https://www.google.com/search?q=quais+as+fakes+news+que+a+direita+tem+soltado
https://humanidades.com/br/dom-quixote/
RAMALHO, Viviane - Resende, Viviane de Melo. Análise de discurso (para a) crítica: O texto como material de pesquisa. Coleção: Linguagem e Sociedade Vol. 1. Campinas, SP: Pontes Editores, 2011.
Doutorando em Ciência Criminal, Mestre em Filosofia do Direito e do Estado (PUC/SP), Especialista em Direito Penal e Processo Penal (Mackenzie/SP), Bacharel em teologia e direito, professor de Direito e pesquisador da CNPq .
Conforme a NBR 6023:2000 da Associacao Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), este texto cientifico publicado em periódico eletrônico deve ser citado da seguinte forma: SILVA, Marcos Antonio Duarte. O discurso ideológico e seus tentáculos: a derrocada de uma sociedade Conteudo Juridico, Brasilia-DF: 08 jun 2026, 04:51. Disponivel em: https://conteudojuridico.com.br/consulta/Artigos/70108/o-discurso-ideolgico-e-seus-tentculos-a-derrocada-de-uma-sociedade. Acesso em: 09 jun 2026.
Por: Marcos Antonio Duarte Silva
Por: Vânia Santos da Silva

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